Faltou combinar com o cupim e seus colegas

Você já parou para pensar que aquela barrica de carvalho que está ali, tranquilamente, na adega, provavelmente não é nova?

E mais: que ela provavelmente já foi usada para fazer vinho antes de chegar ali?

Pois é. Barrica também tem vida útil.

E talvez essa seja uma das coisas mais curiosas do mundo do vinho para quem está chegando agora: nós falamos em barricas de primeiro, segundo, terceiro uso — e, dependendo do produtor e da finalidade, até mais — como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Mas não é.

Porque, se você olhar para uma barrica, a primeira pergunta que vem à cabeça é bastante razoável: se ela continua inteira, continua segurando vinho e ninguém está dizendo que a madeira apodreceu, por que simplesmente não continuar usando?

A resposta está justamente no que não conseguimos ver.

Uma barrica não é apenas um recipiente para armazenar vinho. Ela participa ativamente da sua evolução.

Quando uma barrica nova recebe vinho pela primeira vez, a madeira pode liberar uma série de compostos que passam a fazer parte da composição aromática e gustativa do vinho. Dependendo da origem do carvalho, da forma como a madeira foi preparada e da intensidade da tostagem, podem aparecer notas de baunilha, coco, especiarias, café, chocolate, caramelo e uma série de outros aromas e sensações.

Só que essa capacidade não é infinita.

A madeira vai sendo progressivamente “extraída” pelo vinho. A quantidade e a velocidade com que determinados compostos são transferidos diminuem com os usos. Por isso, uma barrica de primeiro uso pode ter um impacto muito diferente de uma barrica de terceiro uso.

Mas aqui está uma parte ainda mais interessante: a barrica não serve apenas para colocar sabor de madeira no vinho.

Ela também participa da evolução do vinho por meio das trocas gasosas que ocorrem através da madeira e de suas junções. Essa microoxigenação, em determinadas condições, pode contribuir para mudanças na estrutura, na textura e na evolução de compostos fenólicos e aromáticos.

Ou seja: mesmo quando a barrica já não entrega ao vinho a mesma quantidade de compostos da madeira, ela ainda pode desempenhar uma função enológica importante.

É por isso que dizer simplesmente que uma barrica “perdeu a função” depois de alguns usos é uma simplificação.

Ela pode ter perdido boa parte da sua capacidade de aportar determinados compostos da madeira e continuar sendo útil para a evolução do vinho.

E aí chegamos a uma pergunta ainda mais interessante: afinal, quanto tempo uma barrica dura?

Aqui começa a resposta que talvez surpreenda quem nunca pensou nisso.

Não existe um número mágico.

A vida útil de uma barrica depende de uma combinação de fatores: tipo e origem do carvalho, qualidade da madeira, fabricação, tostagem, vinho que recebeu, tempo de permanência, frequência de uso, limpeza, armazenamento e condições da adega.

E existe ainda um detalhe bastante prosaico.

A barrica é feita de madeira.

E madeira, por mais nobre que seja, continua sendo madeira.

Ela pode sofrer com umidade. Pode sofrer com fungos. Pode sofrer alterações estruturais. Pode apresentar vazamentos. Pode ser afetada por insetos.

Inclusive aqueles pequenos seres que parecem ter uma opinião bastante firme sobre o destino das nossas barricas.

Os cupins.

E seus colegas.

Porque talvez a maior ironia seja essa: enquanto nós estamos discutindo se uma barrica está no segundo ou terceiro uso, existe uma turma no ambiente que não está nem um pouco preocupada com sua classificação enológica.

Para eles, é simplesmente madeira.

E madeira é almoço.

Talvez por isso uma barrica não tenha exatamente uma “data de validade”.

Ela tem uma história.

Primeiro, uma história de madeira nova e extração intensa de compostos.

Depois, uma fase em que continua participando da evolução do vinho, mas com menor aporte de componentes da madeira.

E, finalmente, chega um momento em que a pergunta deixa de ser “quantos usos ela tem?” e passa a ser “ela ainda está cumprindo a função que queremos que cumpra?”

Essa talvez seja a melhor maneira de olhar para uma barrica.

Não como um simples recipiente.

Mas como uma ferramenta enológica que também envelhece.

E, convenhamos, envelhecer bem é uma coisa que o vinho e a barrica têm em comum.

Só não conte isso para o cupim.